Portugueses estão a (re)descobrir o valor das algas | in "SAPO"

A produção mundial de algas duplicou entre 2005 e 2015. Portugal segue a mesma tendência, com novos projectos a cimentarem-se e novos produtos a despoletarem o interesse dos consumidores. Com uma vasta costa atlântica, o país tem nas suas águas cerca de 700 espécies de algas e pode posicionar-se como um actor principal neste mercado em amplo crescimento. Afinal, por cá há muito que se consome o tremoço-do-mar, a nori do Atlântico ou o cabelo-de-velha.

Para os açorianos, o tremoço-do-mar (Fucus spiralis) é considerado um petisco e consumido fresco. Já a alga vermelha Porphyra, conhecida como erva patinha ou nori do Atlântico, é consumida frita ou incorporada em sopas e omeletes. E as algas vermelhas do género Osmundea, conhecidas como erva malagueta, são conservadas em vinagre e consumidas ao longo do ano a acompanhar peixe frito. Em Portugal Continental não existe um consumo generalizado, mas a fava-do-mar é recolhida por algumas populações costeiras e as algas vermelhas Gelidium e Pterocladia são apanhadas a Sul de S. Martinho do Porto para a produção de agar.


Constituindo a base da cadeia alimentar de todos os ecossistemas aquáticos, as algas permitem alimentar grande parte dos herbívoros destes ecossistemas. «De uma forma directa ou indirecta, as algas constituem um alimento fundamental para quase todos os seres vivos», começa por assinalar Leonel Pereira, professor do Departamento de Ciências da Vida na Universidade de Coimbra e um estudioso de ficologia. Além disso, o seu papel no equilíbrio do ambiente é indiscutível: «As algas constituem o verdadeiro "pulmão" da Terra, permitindo ao mesmo tempo retardar os feitos das alterações climáticas, retirando da atmosfera muitas toneladas de dióxido de carbono».


Com uma vasta costa atlântica, os portugueses desde sempre aproveitaram as algas para vários fins, mas alguns foram-se perdendo no tempo. A apanha de algas marinhas na região entre os rios Douro e Minho foi, desde a Idade Média e até meados do século XX, uma actividade económica e socialmente importante em Portugal. Estas algas, conhecidas como sargaço, eram utilizadas como fertilizante agrícola. Dado o seu elevado potencial como fonte de receita, foi até estabelecido no século XVI um imposto real sobre o sargaço.


No caso da alimentação, o consumo de macroalgas também se perdeu nas últimas décadas por questões culturais, pela mudança dos hábitos alimentares e pela maior diversidade de alimentos disponíveis. O afastamento dos consumidores levou consequentemente ao actual desconhecimento das suas possibilidades e benefícios. Mas isso está a mudar.


Existem mais de 10 mil espécies de macroalgas identificadas em todo o mundo, sendo que na costa portuguesa estão listadas cerca de 700 espécies. Mas comercializadas podem ser cerca de 70, segundo a lista oficial da Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos, onde se incluem, para além das já referidas, as reputadas spirulina e wakame.


Hoje, para além da gastronomia onde as algas são utilizadas de forma fresca, congelada, seca ou em pó, elas estão a ser vistas como um produto valioso cada vez mais procurado por todos os sectores industriais. No mundo, a procura tem vindo a crescer. Segundo a FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, a produção mundial de algas duplicou entre 2005 e 2015, chegando anualmente ao mercado mais de 30 milhões de toneladas de algas. As suas vantagens? São muitas…


As novas aliadas do bem-estar

A aplicabilidade das algas na alimentação é vasta e são muitos os produtos alimentares do nosso quotidiano onde já são usadas como matéria-prima ou em forma de extractos. Por terem propriedades espessantes, gelificantes e emulsionantes, estão presentes nos rótulos dos alimentos como E400-E405 (algas castanhas), E406 (agar) e E407/E407a (algas vermelhas). Pode encontrar estes ingredientes em gelados, gelatinas vegetais ou solúveis para misturar no leite.


Mas é o seu valor nutricional que está a gerar cada vez mais interesse por parte dos consumidores, com uma nova geração de produtos a chegarem ao mercado, promovendo as algas como uma fonte alternativa de proteína, ricas em fibra, vitaminas, minerais e ácidos gordos essenciais (EPA, DHA e ALA). Actualmente podem ser consumidas numa variedade de produtos preparados, como conservas de peixe, hambúrgueres e almondegas, crackers de arroz, pasta vegetal para barrar e nas propostas de alguns restaurantes. Enquanto ingrediente podem ser consumidas por qualquer pessoa, podendo ser adicionadas a saladas, sopas, arroz, massas, omeletes, em salteados de legumes ou em smoothies de fruta.


Segundo a Associação Portuguesa de Nutricionistas, o teor proteico médio das macroalgas é de 17%, sendo o teor proteico máximo encontrado de 47% na Pyropia tenera. As macroalgas possuem também quantidades elevadas de fibra (23,5% a 64,0% do peso seco). «A presença elevada de fibra pode facilitar uma maior sensação de saciedade e, por sua vez, influenciar o controlo do peso», salienta a APN num documento inteiramente dedicado ao valor das algas.  Nelas encontram-se ainda a vitamina A, vitaminas do complexo B, vitamina C e vitamina E. Quanto aos minerais, as algas fornecem iodo, o ferro, o potássio, o cálcio e sódio. Os adeptos da alimentação funcional e vegetariana, em crescimento, veem nas algas um recurso importante para a sua alimentação, pois estas também facultam micronutrientes essenciais como a vitamina B12, o iodo e o ferro.


«Além do seu valor nutricional têm um valor funcional reconhecido há séculos pelos povos asiáticos e cada vez mais comprovado a nível científico. Desde a protecção gástrica, redução do risco de doenças cardiovasculares, como diabetes e obesidade, até à redução da ocorrência de alguns tipos de cancro ou doenças neurodegenerativas. Cada vez mais, a nível mundial, são desenvolvidos esforços para realizar ensaios clínicos para comprovar de forma inequívoca estes benefícios», salienta Ana Ribeiro, responsável de marketing da ALGAPlus, uma empresa portuguesa pioneira no cultivo controlado e sustentável de macroalgas marinhas autóctones da costa do Atlântico.


Não é pois de estranhar que, numa época em que o bem-estar e a alimentação funcional ganham cada vez mais adeptos, a descoberta ou redescoberta do valor das algas cresça na mesma proporção. «Pobres em gorduras, as algas marinhas possuem polissacarídeos que se comportam, na sua grande maioria, como fibras sem valor calórico. As algas parecem ser, por isso, a melhor forma de corrigir as carências nutricionais da alimentação actual sentidas a nível mundial, nos países desenvolvidos, emergentes e/ou subdesenvolvidos, devido ao seu variado leque de constituintes essenciais», explica Leonel Pereira.


Prevê-se que, em 2050, o consumo de proteínas alternativas seja de 33%, ocupando as algas 11% do total deste consumo. Com esta procura de mercado, as algas estão por isso a ser incorporadas em inúmeros alimentos que chegam às prateleiras dos supermercados, lojas dedicadas ou online. Seja em alimentos pré-preparados, em suplementos alimentares, em pó para adicionar a iogurtes, saladas ou sopas, desidratadas ou mesmo frescas para incorporar em pratos confecionados. As algas chegam assim ao mercado com um novo formato. E vários produtos diferenciados têm selo português, como é o caso do pão de algas, conservas de peixe com algas, gin com algas, etc.


«O consumo directo das macroalgas como ‘legume do mar’ e a integração como ingrediente em formulações de produtos alimentares começa já a ter expressão na Europa, onde é crescente o número de novos produtos à base deste recurso. E é aqui que as macroalgas podem ter um papel preponderante no futuro da alimentação como substituto de proteína de origem animal, na redução do sal, no incremento dos valores nutricionais e funcionais, ao conferir sabor, texturas e cor. Para além disso conferem os bullet points das tendências da alimentação do futuro: são um alimento natural, saudável, sustentável, vegan, sem glúten, sem OGM e que contribui para uma dieta equilibrada», salienta Ana Ribeiro.


Portugal não é excepção nesta tendência, para a qual contribuem as novas empresas e projectos que apostam neste recurso. «Em Portugal, gostamos de pensar que se está a acompanhar a tendência e a ALGAplus tem tido um papel activo ao desafiar a restauração e o tecido empresarial nacional a inovar e diferenciar a sua oferta através da inclusão das macroalgas em novos produtos quotidianos, como conservas de peixe, chocolate, preparados de farinha para pão, mel, pastas de barrar, iogurtes, etc. Temos assim promovido a democratização do consumo das macroalgas através da optimização e certificação de produção para uma boa relação qualidade/preço, pelo desenvolvimento de produtos de fácil aceitação em regime de colaboração empresarial e por uma relação estreita com chefs de referência do panorama nacional», assinala a responsável de marketing.


Para além do crescimento do consumo na Europa na ordem dos 10% a 20%, o uso de macroalgas em nutracêutica, aditivos alimentares e cosméticos está também a impulsionar o aumento da procura por este recurso.

Um mercado em claro crescimento global

Os países asiáticos são os principais consumidores de algas e produtos à base das mesmas, absorvendo cerca de 60% da produção mundial, mas o resto do mundo está a (re)descobri-las de há uns anos a esta parte, seja para consumo humano em diferentes formatos, para rações de animais, fertilizantes ou produtos de cosmética.


As algas podem ser recolhidas no mar ou cultivadas. A recolha de algas selvagens tem-se mantido estável, segundo a FAO, representando 10% da produção que chega ao mercado. De salientar que esta é uma área sensível onde não se pode cometer os mesmos erros que se cometeram com o pescado. Segundo o ficologista Leonel Pereira, «a sua exploração em termos de colheita de algas selvagens, como é o caso da apanha de Gelidium para a indústria do agar, tem de ser feita com um conhecimento actualizado dos stocks de algas selvagens e do uso de boas práticas de apanha, de modo a que seja uma prática sustentável, que estabelece um equilíbrio entre os interesses comerciais e a manutenção de ecossistemas aquático saudáveis».


Mas, na realidade, onde tem havido um grande crescimento tem sido no cultivo de espécies, totalizando 90% do mercado, com a Eucheuma, alga castanha que se adiciona a preparados culinários, a representar 33% de todo o cultivo mundial; seguida da Wakame, uma alga japonesa extremamente nutritiva a representar 25% da produção mundial controlada; e a Gracilaria, uma alga vermelha utilizada para a produção de agar a representar 13% da produção mundial.


Esta última, por cá também chamada de cabelo-de-velha, é uma das dez macroalgas produzidas pela ALGAplus. Mas também cultivam a alface-do-mar (Ulva rigida), a erva-patinha, o chorão-do-mar (Codium tomentosum), entre outras.


A empresa faz parte de um mercado em crescimento, com novos projectos a surgir para dar resposta a uma oportunidade identificada. A esta juntam-se outras em vários pontos do país.


O potencial de um país com vasta costa atlântica

Por ora, os maiores produtores de algas selvagens são o Chile, a China e a Noruega. Quanto às espécies cultivadas, os maiores produtores são a China, a Indonésia, a Coreia e as Filipinas. Mas esta é uma oportunidade para um país que tem 1860 km de costa, incluindo Portugal continental, Açores e Madeira. «Dos vários milhares de espécies de algas já identificados em todo o mundo, menos de 20 constituem 90% da biomassa explorada nas diversas áreas de utilização comercial das algas, seja para uso alimentício, extracção de ficocolóides, usos farmacológicos e médicos, ou ainda para a produção de fertilizantes, cosméticos, etc. Contudo, esse número aumenta para cerca de 500 espécies, se considerarmos todas as espécies às quais se lhe reconhece alguma utilização e aplicação — e provavelmente ascenderá, muito em breve, a muitas mais se tivermos em conta os inúmeros estudos científicos que poderão incidir sobre a flora algal», explica Leonel Pereira.


A costa portuguesa apresenta uma elevada biodiversidade de espécies de algas marinhas, o que representa um grande potencial para desenvolver a área da apanha, do cultivo e do uso das algas marinhas. «No que diz respeito aos Açores, Madeira, e à costa continental portuguesa, entre a diversidade que albergam as nossas águas, ocorrem mais de 60 espécies com interesse e potencial de exploração económica. Com base em critérios centrados numa potencial exploração humana destes recursos naturais, entre outros, consideraram-se a demanda observada no mercado, a biomassa presente nas zonas costeiras, a facilidade na sua recolha e as infraestruturas para a sua transformação e/ou comercialização», acrescenta o especialista em algas.


Foi isso que Helena Abreu, bióloga e diretora-geral da ALGAplus, viu quando em 2011 fundou com o também biólogo Rui Pereira esta empresa: «O facto de serem mais de 10 mil espécies, com aplicações em todos os sectores industriais torna-as num recurso valioso e desafiante. Na era da economia azul e da valorização dos recursos marinhos, pode ser uma oportunidade para gerar valor acrescentado e riqueza, desde que assente numa gestão equilibrada dos recursos.


O valor acrescentado que o país pode dar, para além da sua vasta costa, passa muito pelas potencialidades que a investigação e desenvolvimento no universo das algas permite. «Se tivermos de escolher, a domesticação da alga Nori-do-Atlântico é a nossa maior inovação até ao momento, em desenvolvimento já desde 2013. A nori, importada da Ásia e usada no sushi, é a alga mais valorizada no mundo e poder produzir na Europa o mesmo tipo de alga é um grande breakthrough no sector», assinala Helena Abreu.


A introdução das algas noutros alimentos, como pão feito à base de algas, substituindo estas o sal e conferindo sabor ao pão, é outro dos exemplos de inovação portuguesa bem-sucedida, assim como a melhoria e inovação nos processos produtivos com base técnico-científica. «Contribuímos para essa tendência ao passar de cerca de 1ton em 2013 para uma produção atual de cerca de 40ton. de macroalgas frescas. Com o aumento de produção previsto na ALGAplus para próximo das 100ton em 2021, com a potencial entrada de novos players e ainda juntando a produção nacional de microalgas, a produção de algas em Portugal está em franco crescimento e é uma referência a nível europeu», finaliza Helena Abreu.


Se quiser explorar este 'novo' ingrediente, o ficologista Leonel Pereira deixa-lhe uma receita:


ARROZ DE ALGAS, PASSAS E PINHÕES

Ingredientes para seis pessoas:

30 g de Esparguete do Mar (Himanthalia elongata)

600 g de arroz

Cebola pequena finamente picada

100 g de passas de uva ou sultanas

1 Punhado de pinhões

Uma colher de chá de caril

Azeite

4 Colheres de molho de soja


Preparação:

Demolhar as algas num recipiente com água morna, enquanto salteamos a cebola picada com um pouco de azeite numa sertã. Quando começar a dourar junta-se a passas de uva até que inchem. Mais tarde juntam-se os pinhões sem os deixar torrar. Adicionar o caril em pó e misturar tudo muito bem. Numa panela à parte coze-se o arroz juntamente com as algas, em água abundante (sem sal), durante 30 minutos, em lume brando. No final junta-se o sal e deixa-se cozer mais 5 minutos. Escorre-se a água sobrante da cozedura do arroz e mistura-se com o refogado com as passas e pinhões, deixando saltear até que o arroz fique com o perfume do caril. Finalmente junta-se o molho de soja e serve-se quente.


Créditos da Notícia: SAPO


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