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Residência de João Rodrigues prepara 3ª temporada por Portugal com sete chefs, de Pía León a Nicolai Nørregaard

  • há 4 minutos
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O Residência de João Rodrigues e Vânia Rodrigues prepara uma terceira temporada por sete regiões portuguesas, com Pía León, Nicolai Nørregaard, Ivan Ralston e outros quatro chefs convidados. O percurso arranca em Setembro, no Algarve.

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O projecto "Residência" explora a cultura gastronómica das várias regiões do país, destacando os produtos e produtores locais. Pretende alertar para problemáticas como as dificuldades enfrentadas pelas regiões de menor densidade populacional, a desertificação dos territórios e o desaparecimento do saber-fazer e das tradições, que são símbolos da cultura portuguesa (📷: Residência)

Sete regiões portuguesas, sete chefs internacionais e nove meses de viagens pelo país. É este o desenho da terceira temporada do Residência, projecto criado por João Rodrigues e Vânia Rodrigues, que arranca em Setembro de 2026, no Algarve, com a peruana Pía León, do Kjolle, e deverá terminar em Julho de 2027, no Alentejo.

Pelo meio, passarão pelo Residência Jaime Rodríguez (Celele, Colômbia), no Centro; Juan Luis Martínez (Mérito, Peru), na Madeira; Santiago Fernández (Venezuela), no Porto e Norte; Tam Chudaree Debhakam (Baan Tepa, Tailândia), em Lisboa; Nicolai Nørregaard (Kadeau, Dinamarca), nos Açores; e Ivan Ralston (Tuju, Brasil), a quem caberá a etapa final, no Alentejo.

É a terceira temporada de um projecto que, nas duas primeiras edições, percorreu mais de 22 mil quilómetros, envolveu mais de uma centena de produtores e juntou 40 chefs portugueses e 11 estrangeiros. Mas João Rodrigues faz questão de esclarecer que não se trata de uma reinvenção do formato.

“A primeira [temporada] teve um lado muito experimental. Foram 12 meses e, nessa altura, eu não tinha restaurante, portanto havia bastante tempo para dedicar a este projecto”, conta ao Mesa Marcada. “Entretanto, o projecto evoluiu, tem obviamente uma componente bastante internacional neste momento e é por aí que vamos continuar.”

A intenção, aliás, é que deixe de fazer sentido falar propriamente em regressos do Residência: João Rodrigues e Vânia querem que passe a ser um projecto anual, com cada temporada a decorrer dentro de uma baliza aproximada de um ano.

Não basta ser um chef conhecido

A escolha dos convidados também ajuda a perceber para onde o Residência está a caminhar. Os nomes vão surgindo das viagens e dos muitos encontros de João Rodrigues em congressos e eventos internacionais, mas o critério não se fica pelo currículo ou pela notoriedade.

“Procuramos alguém com quem tenhamos uma visão relativamente comum em relação à gastronomia e ao território”, explica. “Tentamos trazer chefs de outras proveniências, com quem sentimos que temos uma afinidade e com quem partilhamos os mesmos valores. São chefs que admiramos, de cujo trabalho gostamos muito e com quem achamos que temos uma visão aproximada sobre a importância da gastronomia no mundo.”

Há também uma ideia de troca. O propósito não é apenas levar cozinheiros estrangeiros a conhecer Portugal, mas cruzar formas diferentes de olhar para o território, a produção e a cozinha. “O Residência vive muito deste encontro de culturas”, diz João Rodrigues, sublinhando que também lhes interessa aquilo que podem “aprender bastante com a vinda destes mesmos chefs”.

Pía León, a convidada que abre a temporada no Algarve, em Setembro, tem, de resto, um percurso particularmente ligado às questões do território e da produção. A chef peruana começou a trabalhar no Central, em Lima, em 2010, tornando-se chef de cozinha do restaurante de Virgilio Martínez, seu marido, função que desempenhou durante uma década. Em 2018 abriu o seu próprio restaurante, Kjolle, actualmente no 9.º lugar da lista The World’s 50 Best Restaurants e 2.º na Latin America’s 50 Best Restaurants.

Para além da cozinha, León criou, em 2013, juntamente com Virgilio e Malena Martínez, a Mater Iniciativa, centro de investigação transdisciplinar que estuda o território peruano, cruzando gastronomia com ciência, artes e humanidades, e no qual é actualmente directora de Experimentação. Essa investigação alimenta, por sua vez, o trabalho de restaurantes como Kjolle e Central, em Lima, MIL, em Cusco, ou MAZ, em Tóquio.

Começa no Algarve, com Pía León

A primeira viagem desta terceira temporada será, portanto, pelo Algarve, seguindo-se Centro, Madeira, Porto e Norte, Açores, Lisboa e, finalmente, Alentejo.

A mecânica mantém uma das características centrais da edição anterior. Cada Residência junta um chef internacional a João Rodrigues e a um chef português, que funciona também como conhecedor e anfitrião daquele território. Antes de chegarem à mesa, percorrem a região, contactam com produtores, agricultores, pescadores, viticultores, artesãos e outros projectos locais, procurando que o jantar seja uma consequência do que encontraram pelo caminho.

E a experiência não fica reservada aos chefs e aos jornalistas que os acompanham durante as viagens. No dia de cada evento existe também um pequeno roteiro de visitas a produtores destinado a quem reservou lugar para a refeição.

“Não é só o jantar. As pessoas podem efectivamente participar nas visitas a produtores e esse lado complementar não tem qualquer custo”, explica João Rodrigues. A ideia é que quem se desloca propositadamente a uma região para participar no Residência possa também conhecer alguns dos projectos que João e Vânia têm vindo a mapear através do Projecto Matéria.

Chegar a mais gente sem fazer eventos maiores

Há uma aparente contradição no caminho que o Residência tem vindo a seguir. O projecto ganhou uma dimensão internacional bastante maior, mas João Rodrigues não pretende que isso se traduza necessariamente em eventos maiores ou mais lugares à mesa.

“O Residência é um evento que não queremos massificar”, afirma. “Achamos que nestes eventos mais pequenos podemos ter uma atenção maior ao detalhe, fazer as pessoas viajar connosco ao longo do país e ter mais tempo e mais calma para mostrar Portugal ao mundo.”

É também aqui que entram os jornalistas estrangeiros que acompanham algumas das viagens. Na temporada anterior participaram 21 jornalistas de 15 países, dos quais resultaram, segundo os responsáveis pelo projecto, 22 trabalhos publicados em meios internacionais.

A lógica é, portanto, que a repercussão do Residência seja bastante maior do que o número de pessoas que se sentam à mesa. E João Rodrigues parece particularmente interessado em mostrar aos visitantes não uma versão postal-ilustrado do país, mas aquilo a que chama “um Portugal genuíno, um Portugal actual”.

“Gostamos muito que este projecto faça uma espécie de mostra sociológica do que é a produção actual”, diz. Isso significa mostrar produtores, vinho e gastronomia, mas também “tradições, ofícios, artesanato”, paisagens e pessoas, procurando fugir, sempre que possível, aos percursos turísticos mais evidentes.

O projecto conta novamente com o apoio do Turismo de Portugal, que João Rodrigues considera “um pilar grande” para a sua concretização, e com parceiros privados como Guia Repsol, Makro, Cutipol, Nutrifresco e Studioneves.

Segundo o chef, essa projecção fora de Portugal começa entretanto a produzir o efeito inverso.. Já não são apenas os responsáveis pelo Residência a convidar: têm recebido pedidos de chefs e jornalistas interessados em participar nas viagens. E alguns dos convidados desta temporada chegaram mesmo com um destino português em mente. Nicolai Nørregaard, do Kadeau, quis conhecer os Açores; Juan Luis Martínez, do Mérito, manifestou particular interesse pela Madeira.

“Na realidade só fizemos duas edições e só uma delas teve esta visão mais internacional”, lembra João Rodrigues. “As pessoas já sabem o que é o Residência e querem participar. Para nós isso é muito satisfatório.”

MOGO adiado para Maio de 2027

A terceira temporada do Residência coincide também com um atraso significativo noutro dos projectos de João Rodrigues e Vânia Rodrigues. O MOGO, restaurante gastronómico que está a nascer no Alentejo e cuja abertura chegou a estar prevista para Maio deste ano, deverá agora abrir apenas em Maio de 2027.

João Rodrigues esclarece, contudo, dois pontos. Primeiro, que o incêndio que esteve na origem do atraso não ocorreu nas instalações do MOGO, mas “num edifício adjacente”, embora a dimensão do fogo tenha acabado por afectar significativamente os trabalhos e a abertura. Segundo, que o lançamento desta terceira temporada do Residência não tem a ver com esse adiamento.

“O Residência já estava previsto, independentemente de o MOGO abrir ou não”, garante. “São dois projectos que vão seguir o seu caminho e as duas coisas não se relacionam.”

Há, ainda assim, um ponto em que os dois caminhos poderão finalmente encontrar-se. Se o novo calendário do restaurante for cumprido, João Rodrigues conta realizar a última etapa desta terceira temporada – precisamente a do Alentejo, com Ivan Ralston – já no MOGO.

Será, de certa maneira, o fecho de um círculo que começou bastante antes. Hoje, João Rodrigues descreve o Projecto Matéria como a estrutura-mãe de um universo do qual fazem parte dois restaurantes com propostas muito diferentes, o Canalha, em Lisboa, e o futuro MOGO, no Alentejo, e o Residência, enquanto projecto autónomo, itinerante e, a partir de agora, com intenção de voltar à estrada todos os anos.



Créditos da Notícia: Mesa Marcada


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