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Kristin sem impacto no abastecimento de alimentos, mas pode chegar à carteira dos consumidores

  • há 1 dia
  • 6 min de leitura

Frutas e legumes, mas também a carne e o peixe, são alguns dos produtos que poderão subir devido ao temporal que arrasou explorações agroalimentares. Fornecimento de alimentos não está em causa.

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Com grandes explorações agrícolas destruídas na região Oeste, ou sem capacidade de retomar a produção nos próximos meses, as grandes distribuidoras deverão ter de recorrer a outros fornecedores, provavelmente em Espanha. (📸: Unsplash)

Os danos em explorações agroalimentares, causados pelo mau tempo em Portugal, ainda não se reflectiram nem no abastecimento, nem nos preços dos bens alimentares que chegam aos supermercados. Com grandes explorações agrícolas destruídas na região Oeste, ou sem capacidade de retomar a produção nos próximos meses, as grandes distribuidoras deverão ter de recorrer a outros fornecedores, provavelmente em Espanha. Apesar de não se perspectivarem problemas ao nível do abastecimento, as associações admitem que bens como as frutas e os legumes, ou a carne, poderão ficar mais caros.

“O aumento de preços, devido às condições climáticas, é algo que já vimos a sentir e que, infelizmente não deverá parar”, admite Deolinda Silva. Para a directora executiva da PortugalFoods, “esta é mais uma crise, das inúmeras que acontecem todos os dias, num planeta a sofrer as consequências das acções negativas que todos exercemos sobre o ambiente”.

“Prevê-se que o nível de destruição que estamos a passar estas semanas, numa zona com grande intensidade de produção hortofrutícola, entre outras e com zonas de cultivo e de culturas protegidas totalmente destruídas, irão certamente impactar nos preços dos produtos finais, directa ou indirectamente”, explica.

Joel Vasconcelos, CEO da Lusomorango – Organização de Produtores de Pequenos Frutos, também reconhece que “eventos desta dimensão podem ter, inevitavelmente, impacto sobre a oferta, mesmo que mais momentâneo. Quando há destruição significativa de plantas, infraestruturas e equipamentos agrícolas, o risco de escassez existe e, com ele, a possibilidade de uma tendência inflacionista ao longo da cadeia de valor.”.

Dito isto, o empresário assegura que “essa não é a expectativa do setor”. “A prioridade dos produtores é fazer frente aos estragos e retomar o mais rapidamente possível a capacidade produtiva, garantindo que os alimentos continuam a chegar às mesas das famílias e às prateleiras dos supermercados a preços acessíveis”, afiança.

Mas, para que isso seja possível, “é fundamental que existam apoios eficazes e céleres ao restabelecimento do potencial produtivo”, avisa o CEO da Lusomorango, referindo que “sem essa resposta, o risco não é apenas uma subida de preços pontual, mas sim a perda de produção nacional e uma maior dependência de importações, com consequências prolongadas para os consumidores e para a economia”.

“O cabaz alimentar [da Deco] atingiu na última semana o valor maior de sempre, desde que foi lançado em Fevereiro de 2022“, explica Nuno Pais Figueiredo. Segundo o porta-voz da Deco Proteste, este cabaz, que inclui 63 produtos essenciais, está a aumentar semana após semana desde 1 de Janeiro, “um aumento que não tem causa directa com o mau tempo“, mas este efeito poderá sentir-se nos preços em breve.

Com os maiores produtores de frutas e legumes que abastecem as grandes superfícies na região do Oeste, Nuno Pais Figueiredo destaca que “é muito provável que [os efeitos causados pelo mau tempo] vá afectar toda a cadeia”. “O cabaz de preços está a aumentar todos os meses e ainda não tem a ver com isto”, atira. “A perspectiva é que [o preço dos alimentos] venha a aumentar“. E a subida não deverá ficar-se apenas pelos produtos mais produzidos nas áreas afectadas pelo mau tempo, como as frutas e legumes.

O responsável da Deco Proteste destaca que, com muitas regiões isoladas, vão aumentar os custos de deslocação, afectando por exemplo a pesca e o congelado, que vem da região de Peniche.

Com grandes explorações de suínos na região do Oeste, João Bastos, secretário-Geral Adjunto da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores, fala numa “situação absolutamente catastrófica” para o setor. “Ainda não conseguimos fazer um balanço de prejuízos porque ainda não acabou”, realça, acrescentando que “as explorações continuam sem luz, sem ração, sem água, nada”.

Só calculando os danos causados ao nível das instalações, a depressão Kristin fez prejuízos de 280 milhões de euros nas explorações afectadas. “Há um milhão de animais nestas explorações afectadas”.

Para conseguirem salvar as explorações, devido aos estragos nas instalações, as empresas têm estado a mandar porcos para os matadouros. “Os matadouros têm estado a trabalhar praticamente 24 sobre 24 horas por dia a abater animais para livrar as explorações de animais na fase de engorda”, explica o representante do sector.

Já no mercado de leitões para engorda, João Bastos destaca que as explorações “não têm produto bom para a engorda”, por isso estão a fazer parcerias em Espanha “para tirar os leitões e engordá-los” lá. De Espanha deverá também vir a resposta para a quebra na produção em Portugal, com “20 a 30% das explorações afectadas, com um peso efectivo de 50% do mercado“, calcula.

O responsável estima que seja necessário um ano para as explorações retomarem a produção, até voltarem a ter animais disponíveis para consumo. Em relação aos contratos, João Bastos está confiante que as empresas portuguesas vão conseguir recuperar o negócio. Sobre o impacto desta situação nos preços a que a carne de porco vai chegar aos supermercados, nota que “não há razão para preços aumentarem, mas temo que possa haver algum aproveitamento, nomeadamente pela grande distribuição“.

Jorge Henriques, presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares – FIPA, explica que, no que diz respeito à indústria agroalimentar, “o que impactou de forma drástica teve que ver com o corte de energia elétrica e de comunicações”, o que levou a paralisações nos dias seguintes à intempérie, gerando problemas sobretudo para as empresas que trabalham com produtos perecíveis. Mesmo perante as dificuldades, o responsável garante que “não houve ruptura de abastecimento” e as empresas conseguiram assegurar as suas encomendas.

Quanto aos prejuízos, diz que ainda não estão quantificados, mas “os prejuízos que o país vai suportar são verdadeiramente dramáticos”. Em termos de potencial impacto nos preços que chegam aos consumidores, Jorge Henriques refere que “não há ninguém que esteja a pensar que os prejuízos vão ser pagos pelos consumidores”, embora admita que muitas explorações agroalimentares vão ter custos enormes.

Associações temem perda de competitividade

Sobre a possibilidade de as empresas afectadas pelo temporal perderem clientes, Deolinda Silva realça que, “não falando da actividade agrícola e de minimamente processados, que estarão mais directamente afetados, a auscultação preliminar à indústria não demonstra, felizmente, uma situação de gravidade generalizada ao ponto de criar rupturas que levem a essa situação”, admitindo que “existirão, provavelmente excepções”.

A directora executiva da PortugalFoods nota, no entanto, que o mau tempo tem “impactado em investimentos que estavam a ser efetuados, por algumas empresas, e determinaram a suspensão temporária de alguns trabalhos nomeadamente de construção civil, por inexistência de condições de segurança e de execução técnica adequadas e de constrangimentos ao nível da cadeia de fornecimento, verificando-se o agravamento dos prazos de entrega por parte dos fornecedores”.

“É essencial que os apoios sejam activados rapidamente, como já anuncia o Governo, mas também que existam apoios adicionais e extensões dos prazos de execução dos projectos de investimento e inovação produtiva, por forma a mantermos a competitividade do sector”, avisa a mesma responsável.

O CEO da Lusomorango reconhece que o risco de perder clientes “existe, sobretudo num sector fortemente orientado para a exportação, onde a fiabilidade do fornecimento é um factor crítico”. “Os mercados internacionais não esperam e, quando surgem rupturas prolongadas, os clientes procuram alternativas“, lamenta.

“Esse risco pode ser significativamente reduzido se conseguirmos restabelecer rapidamente a capacidade produtiva e honrar os compromissos comerciais. É precisamente aqui que a resposta do Governo se torna determinante na mobilização atempada dos recursos necessários, para evitar que a agricultura portuguesa perca quota em mercados internacionais que demoraram anos a conquistar”, avisa o empresário.

Joel Vasconcelos lembra que o sector das frutas, legumes e flores tem sido um contribuinte líquido positivo para a balança comercial portuguesa. Segundo refere, no ano passado, de acordo com a PortugalFresh, o sector exportou 2,6 mil milhões em valor. “Se houver perda de clientes e de mercados, a recuperação será lenta e difícil – nalguns casos, provavelmente irreversível. A capacidade de evitar esse cenário está, neste momento, largamente nas mãos do Governo português e da forma como decidir agir”, defende.


Créditos da Notícia: ECO


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