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“O ataque dos tomates assassinos”. Mitos e preconceitos sobre os alimentos que levamos à mesa.

Centenas de anos após a sua introdução e consumo na Europa, o tomate ainda era alvo de disputas em tribunal nos Estados Unidos: seria uma fruta ou um legume? E correríamos risco de morte com a sua ingestão? Também a mal-amada batata sofria de má reputação, assim como os frutos secos, instigadores da “morte por fruta”. Matt Siegel detém-se neste tema no seu livro “A História Secreta dos Alimentos”, do qual publicamos um excerto: “O ataque dos tomates assassinos”.

Em A História Secreta dos Alimentos (edição Casa das Letras), Matt Siegel desvenda toda uma nova perspectiva sobre os alimentos, desmontando mitos e abordando histórias e tradições mal contadas.


Porque é que, de uma forma algo masoquista, somos atraídos por alimentos que nos podem fazer mal, como as malaguetas? Como espécie animal, estaremos geneticamente programados para ser obcecados por comida?

Questões levantadas pelo autor a par da exploração que faz de temas como o papel da comida nos contos populares ou as conotações sexuais dos alimentos. O livro explora as subculturas históricas, culturais, científicas e culinárias deste tão essencial reino que são os alimentos.


Matt Siegel escreve sobre comida e cultura para publicações como The Atlantic e The Paris Review. Tendo sido professor de inglês, vive agora em Richmond, Virgínia, onde se dedica à escrita a tempo inteiro e faz consultoria para marcas da indústria alimentar.


O ataque dos tomates assassinos*

Em 1893, 300 anos após se iniciar o cultivo de tomate na Europa, foi preciso o Supremo Tribunal dos EUA decidir se o tomate era um fruto ou um legume. Na altura, os legumes importados estavam sujeitos a uma tarifa de dez por cento para proteger os agricultores americanos, devido ao Tariff Act de 1883, mas, em 1887, um importador de tomates, chamado John Nix, processou o cobrador do porto de Nova Iorque para recuperar o seu dinheiro, argumentando que os tomates eram frutos e, portanto, isentos. E este argumento foi contestado durante seis anos, em crescentes batalhas judiciais, antes de chegar ao mais alto tribunal do país, onde os juízes do Supremo Tribunal leram vários dicionários e ouviram depoimentos de testemunhas especializadas antes de acabarem por decidir que os tomates eram legumes, porque “são, como as batatas, cenouras, pastinacas, nabos, beterrabas, couve-flor, couve, aipo e alface, normalmente servidos à refeição (…) e não, como os frutos em geral, como sobremesa”.


Isto aconteceu pouco tempo depois de as pessoas terem, finalmente, decidido que os tomates não eram venenosos, uma crença que durara centenas de anos, devido em grande parte à sua relação botânica com a mandrágora e a beladona, que estão na mesma família e não só são venenosas como também se dizia serem usadas nas “poções das bruxas” e para convocar lobisomens. De facto, o nome científico do tomate, Solanum lycopersicum, significa, literalmente, “pêssego de lobo”, do grego lykos (“lobo”), que também nos deu licantropo (“lobisomem”) e persicon (“pêssego”) – enquanto o seu nome alemão antigo é Wolfspfirsich. E tão recentemente como nos anos 1860, rumores generalizados alertaram para as culturas de tomate infestadas de vermes venenosos, capazes de cuspir o seu veneno fatal a vários metros, provocando uma terrível agonia e morte instantânea – mas, felizmente, os vermes revelaram-se lagartas inofensivas. Outra queixa mais credível era a de que as entranhas do tomate eram demasiado ácidas, provocando a libertação de chumbo ou cobre tóxicos dos pratos e utensílios de cozinha. Entretanto, outros alertaram simplesmente para o seu sabor, chamando-lhes “lixo azedo” ou “bagas odiosas e de cheiro repulsivo”.


As batatas, que provêm da mesma família, sofreram uma reputação semelhante. Para além das suas associações com a bruxaria e o culto ao Diabo, pensou-se, em tempos, que causavam sífilis e lepra, em grande parte devido à sua aparência, tendo uma semelhança com as mãos nodosas de leprosos e... hum... outras partes do corpo afligidas. Os russos do século XVIII chamavam-lhes “as maçãs do Diabo” e queimavam-nas na fogueira, enquanto outros advertiam que comer batatas à noite fazia com que as mães tivessem filhos com cabeças anormalmente grandes, ou que prender o nome de alguém numa batata o amaldiçoava até à morte certa. Ao mesmo tempo, os ricos usavam-nas como decoração, cultivando batateiras em jardins de flores ornamentais e usando flores de batateira nas lapelas ou no cabelo.


Em última análise, só quando a fome e o fracasso generalizado das colheitas pressionaram as pessoas, é que os Europeus concederam à batata, a contragosto, um lugar nas suas mesas – e mesmo nessa altura, muitos resistiram.


Os camponeses na Áustria “foram ameaçados com quarenta chicotadas se se recusassem a aceitá-la”, enquanto o rei da Prússia, Frederico Guilherme I, ameaçou cortar as orelhas e o nariz dos dissidentes que se recusassem a plantá-las. Em França, um cientista chamado Antoine-Augustin Parmentier adotou uma abordagem mais suave; depois de lutar para converter os cépticos através da razão e da ciência, apelou ao seu sentimento de inveja servindo batatas a pessoas famosas e contratando guardas armados para cercar os campos de batatas fora de Paris, e voilà, agora temos pommes frites.


Hoje, obviamente, o tomate e a batata são, de longe, os legumes mais consumidos nos Estados Unidos, com um consumo anual per capita de cerca de 14 quilos de tomates e 22 quilos de batatas, em 2019, liderados em grande parte por batatas fritas e molho de tomate. Em comparação, o consumo de cebola, o terceiro legume mais popular, é apenas de cerca de 4 quilos per capita.


E estes não eram os únicos ingredientes que as pessoas temiam. Ainda no século XIX, em Inglaterra, havia um mito de que os frutos crus eram venenosos, com a “morte por fruta” comummente listada como causa de morte nas certidões de óbito vitorianas, uma crença provavelmente decorrente de uma proibição da venda de fruta não cozida, em 1569, para evitar a propagação da peste (que, na realidade, tinha o seu mérito, dado que, na altura, era prática comum os açougueiros atirarem restos de sangue e vísceras para os rios, acabando frequentemente nas margens, e que esta mesma água poluída era frequentemente utilizada para lavar fruta e vegetais).


E o nevoeiro mal se dissipou desde então. As pessoas tinham medo de comer merluza-negra, um tipo de bacalhau oleoso que era, tradicionalmente, atirado de volta ao mar pelos pescadores, até serem rebatizados com um nome mais sexy, em 1994: robalo chileno. Isto apesar do facto de não ser tecnicamente um robalo nem, muitas vezes, chileno; muitos vêm de águas ao largo das costas de África e da Austrália. Agora, é claro, são vendidos por 29,99 dólares o quilo na Whole Foods, devido à sua procura e ao facto de essa procura ter levado à pesca excessiva, passando de uma captura global de apenas 579 toneladas, em 1979, quando eram conhecidos sobretudo pelos cientistas da Antártida, para um pico de mais de 44 000 toneladas, em 1995.


O mesmo aconteceu com o salmão-das-rochas (anteriormente, “galhudo”), o bacalhau-azul (anteriormente, “peixe oleoso”), o linguado Torbay (anteriormente, “bruxa”), e o peixe-relógio (anteriormente, “cabeça de muco”). O uni (ouriço-do-mar) no seu prato de sushi era chamado pelo pescador “ovos de puta”, devido à sua tendência para se acumular em locais indesejáveis, sujando o equipamento; antes disso, na Grécia antiga, os ouriços-do-mar eram metáforas para os pelos púbicos das mulheres. Como David A. Fahrenthold escreve no Washington Post, “o marisco de hoje é, frequentemente, o lixo de ontem de peixes e monstros”.


E o mesmo estado de confusão estende-se a quase tudo o resto que pomos na boca, desde massas a multivitaminas. Certamente, os consumidores estarão mais familiarizados com o esparguete do que com o peixe que era lixo ontem, mas isso não os torna necessariamente mais bem informados ou menos ingénuos. Em 1957, por exemplo, a BBC transmitiu um segmento de notícias sobre “plantações de esparguete”, como uma piada do Dia das Mentiras.


* O Ataque dos Tomates Assassinos é um filme norte-americano de 1978 que une numa mesma película ficção científica, comédia, horror e musicais. O filme é considerado um clássico do cinema trash e deu origem a três sequelas.


Créditos da Notícia: J.M.A.


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