top of page

“Consumir com consciência é perceber que cada decisão influencia o tipo de sociedade que queremos construir”, Nassrin Majid, ConsumerChoice

  • há 23 minutos
  • 6 min de leitura

Em entrevista à Green Savers, Nassrin Majid, Directora-Geral da ConsumerChoice, explica que a sustentabilidade deixou de ser um tema de nicho e passou a ser uma expectativa crescente, exigindo instrumentos claros que transformem intenção em decisão concreta.

sustentável
A Escolha Sustentável é o primeiro sistema de qualificação público - através da avaliação de especialistas e consumidores - de produtos, serviços ou medidas que contribuem ativamente para a sustentabilidade a nível social, ambiental e económico (📷: ConsumerChoice)

Para os consumidores portugueses, optar por produtos sustentáveis já não é apenas uma questão de intenção, mas uma exigência crescente. “Escolher de forma sustentável não significa procurar o produto ‘perfeito’. Significa fazê-lo com consciência e perceber que cada decisão de consumo influencia o tipo de sociedade que queremos construir”, afirma Nassrin Majid, Directora-Geral da ConsumerChoice em entrevista à Green Savers. A responsável sublinha que, para transformar essa intenção em acção concreta, é essencial dispor de informação clara, comparável e credível sobre as escolhas disponíveis.

Hoje, os consumidores dizem querer fazer escolhas mais sustentáveis. Na prática, o que significa “escolher de forma sustentável”?

Escolher de forma sustentável não é escolher o produto “perfeito”. É escolher com consciência. É perceber que cada decisão de consumo é também uma decisão sobre o tipo de sociedade que estamos a alimentar.

Na prática, significa ponderar impacto ambiental, impacto social, transparência da marca, coerência entre discurso e acção. Significa ir além do preço e da conveniência imediata. Mas também significa ter acesso a informação clara, comparável e credível, algo que ainda nem sempre acontece.

A sustentabilidade deixou de ser um tema de nicho. É uma expectativa crescente. O desafio é transformá-la de intenção abstracta em critério real de decisão.

Nota diferenças claras entre intenção e comportamento real do consumidor português?

Claramente. Existe um “gap” entre aquilo que o consumidor diz valorizar e aquilo que efectivamente faz no momento da compra.

Nos estudos que acompanhamos, vemos uma intenção muito elevada de optar por marcas mais responsáveis. Mas quando entram em jogo preço, disponibilidade, hábito ou falta de informação clara, a decisão nem sempre acompanha essa intenção.

Não se trata de incoerência moral. Trata-se de contexto. O consumidor português quer escolher melhor, mas precisa que o mercado facilite essa escolha. Quando a informação é confusa ou excessivamente técnica, a decisão tende a regressar ao critério mais simples: preço ou notoriedade.

É precisamente aqui que instrumentos independentes ganham relevância.

Quais são hoje os principais factores que dificultam uma escolha verdadeiramente consciente?

O excesso de ruído. A banalização do discurso sustentável. A utilização de claims vagos. E, acima de tudo, a dificuldade em comparar.

O consumidor é confrontado com dezenas de mensagens “eco”, “verde”, “responsável”, mas raramente tem ferramentas claras para perceber o que está por detrás dessas palavras.

Além disso, existe um factor estrutural: a percepção de que a sustentabilidade implica sempre um custo superior.

Como nasce o selo Escolha Sustentável e que lacuna vem preencher no mercado?

A Escolha Sustentável nasce da necessidade de trazer clareza a um tema que se tornou central, mas também excessivamente difuso.

A sustentabilidade deixou de ser tendência para se tornar expectativa. No entanto, entre compromissos públicos, relatórios técnicos e claims de comunicação, o consumidor continuava sem uma referência simples e credível que validasse, de forma objectiva, o que é realmente sustentável dentro de cada categoria. Foi essa lacuna que quisemos preencher.

O selo assenta numa metodologia que combina duas dimensões essenciais: uma avaliação técnica conduzida por um painel de especialistas em sustentabilidade, que analisa critérios ambientais, sociais e económicos, e uma validação junto do consumidor, que incorpora a percepção e a experiência real.

Esta dupla abordagem permite-nos garantir rigor sem perder relevância de mercado.

Não criámos mais um selo. Criámos um referencial estruturado, comparável e independente capaz de transformar um conceito amplo numa distinção concreta, útil e confiável, tanto para quem escolhe como para quem lidera marcas.

O que distingue este selo de outras distinções ligadas à sustentabilidade?

A principal diferença está na combinação entre rigor técnico e perceção do consumidor.

A Escolha Sustentável integra uma avaliação conduzida por especialistas, que analisam critérios ambientais, sociais e económicos, mas acrescenta uma dimensão essencial: a validação da prática candidata junto do consumidor. Não basta que uma medida seja tecnicamente sólida. É igualmente importante perceber se é compreendida, valorizada e reconhecida pelo mercado.

É precisamente essa dupla leitura que torna a avaliação única.

Ao cruzar evidência técnica com percepção real, garantimos credibilidade sem perder relevância. Porque a sustentabilidade, para ter impacto, precisa de ser consistente por dentro, mas também significativa por fora.

Que critérios são avaliados e como se garante rigor num tema tantas vezes acusado de greenwashing?

A avaliação incide sobre um produto, serviço ou medida concreta candidata à Escolha Sustentável, analisando o seu contributo real nas dimensões ambiental, social e económica.

Entre os critérios avaliados podem estar, por exemplo, a redução de impacto ambiental, eficiência na utilização de recursos, gestão de resíduos, durabilidade, origem responsável de matérias-primas, práticas laborais e responsabilidade social, bem como transparência e coerência na comunicação da medida implementada.

O rigor garante-se através de uma análise técnica independente, conduzida por especialistas em sustentabilidade, que exige evidência comprovável da prática apresentada e não apenas intenções ou compromissos futuros. Essa análise é posteriormente validada junto do consumidor, garantindo que a medida é compreendida e reconhecida como relevante.

Num contexto onde o greenwashing é uma preocupação legítima e sempre presente, a exigência de prova concreta, a independência da avaliação e a validação externa são os pilares que sustentam a credibilidade do selo.

De que forma este selo ajuda o consumidor no momento da decisão?

Ajuda a decidir com mais confiança.

Num mercado onde existem inúmeras mensagens sustentáveis difíceis de se comparar entre si, esta distinção funciona como um filtro de credibilidade.

Não é apenas um símbolo mas sim a evidência de que aquele produto, serviço ou medida foi sujeito a avaliação estruturada e independente. Isso reduz ruído, diminui a incerteza e devolve ao consumidor algo essencial: segurança.

Tem exemplos de mudanças reais que tenham surgido após a certificação?

Temos assistido a reforço de métricas ambientais, revisão de processos internos, maior transparência na comunicação e também reformulação de práticas para garantir maior consistência entre o discurso e a acção.

Em vários casos, o processo de candidatura levou as empresas a sistematizar e formalizar iniciativas que existiam, mas não estavam estruturadas. Noutras situações, revelou áreas de melhoria que originaram planos concretos de evolução.

O valor está precisamente nessa capacidade de gerar consciência e acção.

Acredita que estes selos podem acelerar a transição para práticas mais responsáveis?

Podem, se forem credíveis.

Quando o mercado reconhece e valoriza marcas que investem em práticas sustentáveis reais, cria-se um incentivo competitivo saudável. A sustentabilidade deixa de ser apenas responsabilidade ética e passa a ser também fator de diferenciação.

E quando a diferenciação se traduz em preferência do consumidor, a mudança acelera.

Como vê a evolução da sustentabilidade enquanto fator competitivo nos próximos anos?

Vai deixar de ser diferencial para se tornar requisito mínimo.

As novas gerações são mais exigentes, a regulação é mais apertada e a transparência é cada vez mais inevitável. As marcas que integrarem sustentabilidade de forma estrutural estarão mais preparadas para competir num mercado onde reputação e responsabilidade caminham lado a lado.

Quem tratar o tema como tendência passageira terá dificuldade em sustentar confiança.

Que responsabilidade têm entidades independentes como a ConsumerChoice neste processo?

Temos uma responsabilidade clara: garantir rigor, independência e transparência.

Num tema sensível como a sustentabilidade, a credibilidade constrói-se na consistência metodológica e na ausência de conflitos de interesse. O nosso papel é assegurar que a distinção assenta em evidência e não em narrativa.

Mas temos também uma segunda responsabilidade: contribuir para elevar o debate e promover maior literacia sobre o que significa, na prática, ser sustentável.

Se tivesse de deixar uma mensagem ao consumidor que quer escolher melhor, qual seria?

Que escolha com consciência, mas sem culpa. Nenhum consumidor consegue ser perfeito. Todos vivemos condicionados por preço, tempo e contexto. O importante é a consistência, é questionar, informar-se e valorizar marcas que demonstram responsabilidade real.

Cada decisão é um pequeno sinal ao mercado. E quando esses sinais se repetem, moldam prioridades. A sustentabilidade não é um gesto isolado. É um caminho colectivo e começa sempre na escolha individual.


Créditos da Notícia: Green Savers


bottom of page