“Tempestade perfeita”. As razões da crise que levou vários restaurantes a fechar este ano.
- Lima com Pimenta

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Nos últimos 12 meses, encerraram mais 13 mil empresas em Portugal, muitas delas do sector da restauração.
Em 2025 foram muitas as notícias sobre inaugurações de restaurantes, cafés e bares de norte a sul do País. O futuro dos novos negócios parecia promissor dado o bom ritmo de aberturas. E, para alguns, é. Para outros, no entanto, este foi um ano difícil, que acabou por ditar o encerramento dos espaços. O sector tem vindo a sofrer, por diferentes factores, e há até quem diga que este ano fica marcado por uma “tempestade perfeita”.
Ainda não existem dados oficiais sobre o número de restaurantes que encerraram em 2025, até porque o ano ainda não terminou. Contudo, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) admite estar preocupada com o balanço da restauração.
“Apesar da resiliência demonstrada por muitos empresários, o ano ficou marcado por um aumento visível de dificuldades operacionais e de encerramentos. Os dados oficiais recentemente divulgados indicam que, no acumulado dos últimos 12 meses, encerraram cerca de 13,6 mil empresas em Portugal. Embora este número não seja exclusivo da restauração, é um indicador que traduz a fragilidade que atravessam muitas micro e pequenas empresas, que representam a esmagadora maioria do sector”, revelou Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP à NiT.
Daniel Serra, da Pro.Var, uma das associações que representa o sector em Portugal, adianta que 2025 foi o culminar do que “tinham anunciado em 2024”. “Nos últimos anos tínhamos alertado para a chegada da tempestade perfeita, motivada por uma conjugação de factores. Actualmente vivemos uma situação crítica, em que assistimos à redução do poder de compra, não só interno, como externo e à perda de um grande tecido empresarial, sobretudo na cozinha nacional”, explica à NiT o presidente da associação.
A maioria dos encerramentos aconteceu de forma “silenciosa”, como notam ambas as associações. “A maioria dos estabelecimentos que acabaram por fechar começam por reduzir progressivamente a actividade, deixam de abrir em determinados dias ou encerram portas sem um processo formal imediato”, resume Ana Jacinto. “Esta realidade faz com que os números estatísticos tendam a subestimar o impacto real, em particular fora dos grandes centros urbanos e dos principais destinos turísticos”, acrescenta.
Segundo a porta-voz, durante os últimos meses, várias delegações do País, receberam diferentes relatos de “negócios em zonas do interior e periferia que não conseguiram recuperar níveis de vendas e rentabilidade”. Esta situação conduziu à perda gradual de postos de trabalho e a encerramentos localizados.
Para Daniel Serra, este efeito é cada vez mais notório em restaurantes dedicados à cozinha tradicional e que não se encontram nos grandes centros urbanos. “Actualmente assistimos a uma grande concentração de restaurantes que continuam a funcionar bem e têm clientes fidelizados. Isto, em deterioramento de outros que não se conseguem aguentar. Pelo que temos percebido acontece sobretudo com negócios mais pequenos, ou que privilegiam a cozinha tradicional”, refere.
O presidente da Pro.Var admite, por outro lado, que o número de espaços que abrem diariamente seja superior aos que encerram. Contudo, alerta para a transformação da tipologia de restaurantes que são inaugurados, face aos que fecham. “Os espaços que vemos a desaparecer são os típicos portugueses, que trabalham com matérias-primas que obrigam a um maior trabalho de transformação e mais mão de obra.” Serra admite ainda que está preocupado com o “desaparecimento de património imaterial nacional” e que esta é uma questão que deveria “preocupar todos, incluindo o Governo”. “A cozinha típica continua a ser um chamariz para os turistas e se isso desaparecer deixam de ver o nosso País como um bom destino para visitar”, alerta.
Os principais motivos para a “tempestade perfeita”
Entre crises inflacionárias e aumento dos preços das matérias-primas, não faltam culpas por distribuir. A entrada de 2025 trouxe um País com muitas mudanças. Uma das maiores diz respeito ao salário mínimo, que subiu para 870€ em janeiro. Em contrapartida, o custo de vida também ficou mais caro, com a subida de preços de vários bens e serviços essenciais, como as telecomunicações, os transportes e as rendas das casas.
O aumento das despesas teve um efeito imediato no poder de compra dos portugueses, que acabaram por diminuir as idas a restaurantes. Além da perda de clientes, com esta situação, os negócios acabaram por enfrentar outro problema: a imprevisibilidade. Se há uns anos era quase certo que os fins-de-semana eram sinónimo de casa cheia, o mesmo não se verifica agora. “Ouvimos vários relatos em que actualmente é impossível prever quando haverá maior ou menor fluxo. Isto faz com que exista um enorme problema de imprevisibilidade, que obriga a que os restaurantes se preparem quer tenham, ou não clientes. Isto acarreta custos tanto de recursos humanos, como bens alimentares”, diz.
Outro dos factores estruturais que mais pressionou a restauração em 2025 foi a forte subida dos preços dos produtos alimentares. “Enquanto a inflacção média do País se situou em torno dos 2 por cento (com a taxa homóloga do IPC em queda para níveis próximos de 2,2 por cento em Novembro), os preços dos bens alimentares registaram aumentos bastante superiores, comprimindo margens que já eram muito reduzidas. Esta evolução, conjugada com uma procura mais frágil fora dos polos turísticos, explica uma parte significativa das dificuldades e encerramentos verificados ao longo do ano”, revela a secretária-geral da AHRESP.
A este contexto somaram-se também as pressões internacionais decorrentes dos conflitos e da política fiscal dos EUA, bem como os custos financeiros, energéticos e as calamidades, que afectaram a afluência em determinadas zonas do País, entre outros. Para completar, Daniel Serra menciona a questão dos impostos, “transversal a todos os empresários”, mas que tem tido “um grande peso no sector”.
“Neste momento os empresários estão sujeitos a um pagamento de 13 por cento de IVA nos alimentos e o nosso pedido é que este baixe para 6 por cento. Era uma medida que podia ajudar os negócios, uma vez que o preço das matérias-primas sobe diariamente. Fica muito difícil aguentar”, refere.
“A AHRESP tem vindo a defender, sistematicamente, ambientes favoráveis ao desenvolvimento dos negócios, sobretudo ao nível fiscal, para que as empresas possam cumprir a sua função, ou seja, produzir riqueza, redistribuí-la e gerar emprego”, adianta Ana Jacinto.
A medida é também partilhada pela Pro.Var que continua a pressionar o Executivo para que seja possível mexer no IVA alocado aos alimentos. “Já apresentámos algumas soluções ao Governo, nomeadamente ao Ministro das Finanças. Uma delas passa por usar um modelo forfetário [usado já no sector agrícola em Portugal], em que se aplica o valor do IVA de forma indirecta, consoante a tipologia, o local onde o negócio está inserido e o número de lugares. Em Espanha e Itália já usam esta fórmula e todos têm uma taxa atribuída. Isto garantia que o Governo recebia sempre uma receita e assim poderia baixar depois o IVA para 6 por cento”, refere.
Com o estabelecimento do novo Governo, os empresários esperam que alguns dos desafios mais notórios, como a carga fiscal ou a solução para um emprego mais permanente sejam finalmente atendidos em 2026.
Créditos da Notícia: NiT






