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"Pirâmide invertida": o novo guia alimentar dos EUA em contraste com o modelo europeu

  • Foto do escritor: Lima com Pimenta
    Lima com Pimenta
  • há 4 minutos
  • 3 min de leitura

O modelo europeu, mais equilibrado e inspirado na dieta mediterrânica, difere claramente da nova “pirâmide invertida” dos EUA, cuja aplicação levanta dúvidas. A nutricionista Joana Martins explica em que consiste o novo esquema norte-americano e quais os aspectos mais questionáveis.

dietary guidelines for americans
📷: Dietary Guidelines for Americans (USA Government)

Os Estados Unidos lançaram no final de 2025 uma revisão bastante controversa das suas directrizes alimentares, apresentando um modelo gráfico que tem sido chamado de “pirâmide alimentar invertida” ou nova roda dos alimentos americana.

Este novo esquema marca um afastamento significativo da abordagem dos últimos anos, substituindo o pictograma MyPlatepor um triângulo invertido que coloca as proteínas, gorduras naturais e alimentos minimamente processados no topo da hierarquia alimentar, enquanto hidratos de carbono refinados, açúcares e alimentos ultra processados aparecem na base ou praticamente fora das recomendações principais.

O responsável pela proposta foi o secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., no âmbito da agenda “Make America Healthy Again” (MAHA). A ideia refere-se a um retorno à “comida de verdade”. Alimentos naturais como carnes, ovos, frutas, vegetais, gorduras saudáveis como abacate e azeite, e laticínios são promovidos como muito necessários, enquanto produtos altamente transformados e açúcares adicionados são fortemente desencorajados.

Principais características da nova pirâmide

- Proteínas estão sobretudo em destaque: recomenda incluir fontes de proteína de alta qualidade (animal ou vegetal) em todas as refeições e sugere um consumo diário de 1,2 a 1,6 g por quilo de peso corporal, significativamente acima do recomendado tradicionalmente.

- Gorduras saudáveis à frente: gorduras naturais como azeite, abacate, nozes e até manteiga ou gordura da carne são listadas como parte de uma dieta saudável.

- Redução de hidratos de carbono refinados: pão branco, arroz, massa, batata e outros hidratos simples ficam numa posição com menos destaque, sendo sugeridos com moderação.

- Açúcares e processados: há um alerta rigoroso para reduzir ou evitar açúcares adicionados e alimentos altamente processados, muito semelhante ao foco que existe em outros guias alimentares.

- Recomendações por estágio de vida: o documento inclui orientações diferenciadas para crianças, adolescentes, gestantes e idosos, reconhecendo necessidades nutricionais distintas.

Pode ser positiva a redução significativa de alimentos processados pois há um consenso generalizado entre especialistas de que minimizar alimentos industriais com poucos nutrientes é benéfico para a saúde pública. Promove as frutas, legumes e alimentos integrais para melhorar a qualidade geral da dieta e reintroduz as gorduras consideradas “boas” (como azeite e nozes) reconhecendo a sua importância biológica e o facto de poderem complementar melhor as necessidades energéticas de muitos grupos.

É uma directriz que tem tido efeito em programas escolares e de assistência alimentar, abrindo caminho para refeições mais nutritivas nesses contextos.

Embora algumas partes do novo guia agradem, há críticas significativas tanto de profissionais de saúde como de especialistas em nutrição:

Dar prioridade à carne vermelha e laticínios pode ser um conflito com recomendações de manter a gordura saturada abaixo de 10% das calorias diárias, algo difícil de seguir na prática.

Como muitos nutricionistas alertam que as evidências para apoiar um consumo tão elevado de proteína não são robustas para toda a população, podendo ser imprudente generalizar essas metas sem considerar idade, actividade física e condições clínicas.

Hidratos no fim da pirâmide contradiz as décadas de estudos que associam estes alimentos a benefícios cardiovasculares de saúde geral.

Além do conteúdo, o próprio formato gráfico da pirâmide invertida tem sido criticado por ser menos intuitivo que o modelo MyPlate e potencialmente enganador para o público.

O modelo português e europeu aposta numa alimentação mais equilibrada e variada, na qual os diferentes grupos alimentares têm um papel complementar, valorizando-se o consumo de hidratos de carbono, especialmente os integrais, e uma ingestão mais moderada de proteínas.

Ambos os modelos alertam para a necessidade de reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, embora o guia americano o faça de forma mais restritiva. Em termos culturais, a diferença é evidente. Enquanto o modelo norte-americano privilegia o conceito de “comida real” e uma leitura mais funcional da alimentação, o modelo europeu integra a dieta num contexto mais amplo de equilíbrio, diversidade e tradição, fortemente influenciado pela dieta mediterrânica.

Nos EUA e globalmente há mais mudanças importantes a acontecer no campo da nutrição e da saúde além da nova pirâmide invertida. Essas mudanças não são isoladas e estão todas ligadas ao facto de doenças relacionadas com alimentação, como a obesidade, a diabetes e doenças cardiovasculares, terem atingido níveis considerados crise de saúde pública em muitos países, especialmente nos Estados Unidos.


Créditos do Artigo: Nutricionista Joana Martins (Sic Notícias)


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